terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Outro texto que eu gostaria de ter escrito. Se soubesse escrever bem assim.

A Travesti, o Advogado e Cazuza

Por Marcio Sotelo Felippe (Inspirado em fatos reais e inspirado em uma pergunta que todo criminalista já ouviu)
Nas noites de frio é melhor nem nascer / Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer / E assim nos tornamos brasileiros / Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro / Transformam o país inteiro num puteiro / Pois assim se ganha mais dinheiro” (Cazuza, O Tempo Não Para)

O rapaz viera de Minas fazer a vida em São Paulo. Dera-se razoavelmente bem. Comprara um opala usado, mas em boas condições. Uma madrugada apareceu morto no carro estacionado nas imediações da avenida Indianópolis. Um tiro na cabeça.
Na mesma noite a polícia prendeu o suspeito. Uma travesti teria assassinado o rapaz em um programa. Matar para roubar, latrocínio.
O jovem advogado nomeado pelo juiz entrevistou o réu antes do interrogatório. Ele negou. Negou para o juiz. Já havia negado para a polícia. Negou tudo o tempo todo. Serenamente.
O advogado impressionou-se com a fragilidade do inquérito. Não havia prova alguma. Ocorreu que a polícia recebera informação de um alcagueta. Amarrou circunstâncias e indícios fracos dando a tudo a aparência de racionalidade investigativa. O informante nunca apareceu. Nunca pode aparecer. Se aparecer morre. O delegado mandou para o fórum. Deu certo. Denúncia por latrocínio.
A coisa toda era tão frágil que o advogado explodiu por dentro. Crime pesado com acusação precária transformavam um jovem advogado em hollywoodiano personagem de filme. A máquina do Estado tinha sua lógica vil. Crime pesado que saía em jornal sem solução era duro de engolir para a polícia. Um pagava. Mas havia alguém para mudar o enredo. Ele.
O defensor entendeu, pois, o jogo jogado. Era simples: acreditar no alcagueta. Ainda que fosse “fria” a delação, ou movida por vingança, ou por nada, apenas para mostrar serviço para a polícia, ele que movimentara toda a máquina do Estado. A polícia acreditou e convinha acreditar: resolvia um latrocínio. O Ministério Público acreditou. Na denúncia, in dubio pro societate e seja o que Deus quiser. Faltava o juiz acreditar. Uma aposta. Se desse certo, missão cumprida. Se não desse, o sol nasceria do mesmo jeito no dia seguinte.
“Não vai ser bem assim”, pensou o advogado no final do interrogatório. Saiu do fórum indignado e foi tomar um café expresso ali na rua XI de Agosto, ao lado do Palácio da Justiça. Na época o fórum criminal era lá. Sorveu o expresso curto, forte e sem açúcar entre murmúrios. “Incrível…delegados, juízes, promotores, a elite do Estado, todos carimbando a delação de um lumpen alcagueta. Se o povo soubesse como são feitas as leis, as salsichas e as decisões judiciais…”
O processo correu como o advogado estava prevendo. Nada que prestasse como prova. Depoimento dos policiais que prenderam o réu e de uma tia da vítima que nem morava aqui e apenas cuidou do funeral. A audiência constrangeu todos. Deu pena da pobre mulher ouvindo aquela história de como seu sobrinho havia sido assassinado em um programa com uma travesti.
O juiz acreditou no alcagueta. Como o delegado e o promotor. Fundamentação um pouco mais elaborada do que a da polícia, arrumando melhor aqueles indícios e circunstâncias, mas tudo, afinal, resumiu-se ao informante das sombras para embasar uma pena pesada.
O indignado defensor foi ao presídio conversar com o réu antes das razões do recurso. Tinha algumas coisas a esclarecer. Absolutamente convencido da inocência do cliente, preparava uma peça arrasadora e irrespondível.
A travesti não era mais travesti. Havia retomado a aparência masculina. Era então um “bíblia”. Na linguagem dos presídios, “bíblia” é o que se converte a uma religião.
A conversa foi breve. O réu interrompeu bruscamente o advogado, antes que ele terminasse a pergunta
- Doutor…eu dei o tiro na cara do rapaz, doutor. Meus dias eram 24 por 48 horas, doutor. Ele não quis pagar. Atirei, peguei umas coisas dele e dei no pé…
“24 por 48…tiro na cara”. O advogado nunca tivera a menor dúvida de que ele fora o primeiro miserável que a polícia achou para livrar-se do latrocínio, embarcando na armação de um alcagueta. Porque um inquérito com aquela ausência de prova era inacreditável. O personagem hollywoodiano largou o seu corpo e voou sobre as ruas de Santana.
Anos depois o advogado ouviu uma canção de Cazuza que dizia “meus dias são de par em par”. Cazuza dizia poeticamente algo semelhante, “par em par”, ao “24 x 48” daquele réu. Dormia 24 horas e dobrava os dias acordados. Par em par. Drogas ou remédios. Ao final das 48 horas, o que era o que, quem era quem, o que valia alguma coisa, o que era real?
Era assim que a polícia trabalhava. Apostava. Muita gente inocente ia para cadeia, mas de vez em quando a roleta parava no lugar certo. Duas vezes por dia um relógio quebrado acerta as horas.
O ânimo era outro, mas advogados têm prazos. Foi para o escritório e avançou para depois da hora do expediente fazendo um extenso e fundamentado recurso. Como epígrafe uma citação livre de Kant: “o princípio da moralidade e o princípio da publicidade não podem ser incompatíveis”. Nem esperava que apreciassem a sutil tirada filosófica: quem podia dizer qual, de verdade, o fundamento daquela condenação? Toda a sofisticada máquina do Estado movimentada pela delação de um alcagueta?

Trinta anos depois daquele dia em Santana o advogado jantava com um conhecido.
- Você defende gente que sabe culpada. Como você pode fazer isso?
Já ouvira tantas vezes aquela pergunta…nunca soube se sair bem dela. Em geral percebia um muro intransponível de linguagem e conceitos.
O advogado ergueu a taça de vinho devagar e levou à boca pensando na resposta à pergunta desagradável. Numa fulminante associação de ideias veio a frase de 30 anos antes. “24 por 48, doutor… tiro na cara”.
Articulou mentalmente a resposta.
“Consigo porque é meu dever e esse dever está apoiado em um princípio superior.
Se culpados são condenados sem provas, pessoas inocentes também começarão a ser condenadas sem provas. A sociedade ganha mais deixando solto o réu culpado contra quem não há provas suficientes do que mandando para a cadeia inocentes. Por isso há o princípio da presunção de inocência.
Sociedades democráticas não são construídas sem princípios e princípios não podem ser respeitados somente quando convém.
Então, meu caro, ou o Estado prova ou o Estado solta. Não pode condenar pela mera convicção subjetiva de delegados, promotores ou juízes, ou por uma aposta deles na alta probabilidade de o acusado ser mesmo culpado. Já os flagrei fazendo isso e sabia que o réu havia cometido um crime horroroso. Mas era só uma aposta do Estado. Aposta casualmente correta, mas, como toda aposta, irracional e irresponsável. Ouvi a confissão do réu e a esqueci quando atravessei o portão do presídio.”
Isso tudo ele pensou. Depois balançou a cabeça num gesto de desânimo, como quem diz “deixa pra lá”, e respondeu, pousando a taça na mesa:
- Os réus não contam isso pra gente.
Depois de 30 anos, aprendera que uma noite ou em uma conversa de bar não se dá um salto na consciência de quem não assimilou ainda o processo civilizatório. Sim, muita gente boa e razoável já conversara algo assim com ele, mas aquele conhecido não estava enquadrado no conceito de gente boa e razoável. Mas prometeu a si mesmo um dia voltar ao assunto com aquele seu interlocutor.
Marcio Sotelo Felippe é pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal.

Fonte: Justificando 

domingo, 11 de janeiro de 2015

A última a saber...

Nasci menina, me lembro que aos 5 anos gostava de um menino da vizinha, Cidinho.
A gente até se abraçava forte quando ninguém tava olhando e brincava de ser namorado enquanto nossas mães conversavam sobre coisas de adultos.
Depois de Cidinho, já na alfabetização, eu gostava de Ayron e tinha uma história de amor imaginária com ele.
Por aí foi...
Ninguém nunca perguntou porque eu gosto de meninos, por que meus amigos são majoritariamente heterossexuais, porque todos os meus namorados foram homens.
Ninguém na minha família jamais ousou perguntar se eu sou heterossexual.
Qual a lógica então de perguntarem se alguém é homossexual e de se ofenderem por não terem ficado sabendo antes?
Quer dizer que no meu caso, basta observar meu comportamento, sem perguntas, sem julgamentos, e no segundo caso a pessoa precisa gritar e "sair do armário"?
Que armário?
O que está no armário é a percepção de quem exige ser comunicado.
Não acho que uma pessoa precise dizer aos pais, amigos e familiares que é gay, assim como não vejo necessidade de dizer que é hétero.
Pais conhecem seus filhos ou, pelo menos, deveriam conhecer.
De fato, precisei amadurecer muito para chegar a essa conclusão. Isso porque nasci e fui educada em uma sociedade que impõe a heterossexualidade como padrão de normalidade, para me desvencilhar dessa visão limitada.
Eu saí do armário e deixei de ser a última a saber. Desenvolvi a sensibilidade e passei a ler melhor as pessoas ao meu redor. É libertador.




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Era questão de múltipla escolha, escolhi a errada.


Sempre lembro do blog quando estou inquieta, frustrada ou triste demais, por mim, comigo, com outrem ou por outrem.
A melhor parte de escrever aqui é saber que quem costuma tirar prints das minhas publicações no facebook e enviar através de outros aplicativos a fim de incitar discórdias, não o faz aqui, já que esse tipo de pessoa não consegue ler nada que ultrapasse as dez linhas do meu raciocínio.
Hoje escrevo para uma pessoa a quem amo muito, por ter certeza de que lerá (é a minha leitora mais assídua, senão a única).
Com todo o amor que há no meu peito, tenho vontade de te fazer enxergar que, talvez, dessa vez você tenha feito a escolha errada.
Nessa sua vida tão corrida, cheia de tentativas, de lutas e de histórias acho que você se passou e vacilou especificamente nessa escolha, isso está te matando aos poucos.
Te percebo mais calada, com um sorriso meio amarelo daqueles de quem não quer deixar transparecer a dor, te vejo um pouco apagada, amiga.
Sei que não quer falar, esconde as lágrimas e as cicatrizes, parece ter vergonha ou medo, mas eu te conheço muito bem e estou te vendo.
Se o maior amor da sua vida deixou de ser você, se a sua maior meta não é mais se fazer feliz, sinto muito, mas você errou novamente.
Deixar que a sua felicidade dependa exclusivamente de uma pessoa que não é você nunca poderia dar certo.
Não deu, você precisa perceber, aceitar e seguir.
Se for para ser feliz você precisa estar com alguém, que esse alguém não seja aquele que ridiculariza seu corpo, que tem vergonha (e expõe isso em alto e bom tom) das suas ideias, que te esconde dos amigos.
Alguém que só te trata com dignidade quando tem algum interesse, que grita contigo, que te apaga dos registros.
Não se conforme, amiga, não aceite esse desprezo.
Você pode até não ser linda como acha que deveria, mas é muito mais linda do que imagina.
Você é uma valente.
Sei que vai me ler. Não se sinta constrangida. Saiba que eu também já escolhi muita alternativa errada em questão de múltipla escolha.
Só mais uma coisa que você já sabe, eu te amo e tem um monte de gente que te ama também e que te quer bem.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pra quem sabe ler mais do que o título.

Eu poderia dizer tantas coisas de tantas maneiras sobre esse surto político- partidário-democrático-elitista que está ocorrendo, mas vou começar falando de mim e da minha vida particular.
No primeiro semestre de História eu, com meus 17 anos ouvia uma professora dizer: - "Vocês não vão sair daqui os mesmos, vão criticar tudo, reclamar de tudo, vão virar uns chatos!"
Por volta dos 18 ouvi outro professor dizer: - "Vocês tem que aprender a ler nas entrelinhas!"
E durante toda a licenciatura frases como: - "Procure saber quem está falando e a quem quer atingir, aí você vai começar a perceber o interesse", eram batidas dia-a -dia.
Formei e de lá pra cá posso não ter aprendido a gravar uma data sequer que é o que esperam que o professor de História aprenda na universidade mas aprendi a me perguntar por quem, para que e para quem certos discursos são disseminados.
Daí ontem perdi a vaia à Presidente Dilma no estádio. Cheguei depois, mas hoje vejo as pessoas exaustivamente repetindo esse feito na internet, uns achando o máximo, outros achando patético.
Acredito que ela já esperava por essa reação, afinal não foi a primeira vez e essa ferramenta linda e maravilhosa chamada internet a Dilminha também tem, acreditam? Até usa twitter! Então é bem difícil acreditar que ela entrou no Itaquerão achando que seria aplaudida de pé.
A minha singela opinião sobre esse acontecimento é a mesma que tive ano passado quanto ao movimento "Vem pra rua", não tenho nada contra a pessoa ser branca, rica, chique e poderosa, nadinha mesmo. Eu também vivo aqui na ralação p ver se um dia consigo pelo menos ter uma casa pra chamar de minha, carro do ano, pra poder viajar e conhecer (inclusive) a Europa dos nossos colonizadores. Tenho muitos amigos que fazem parte desse grupo luxuoso e glamuroso, que tem grana para torrar pagando R$ 990,00 em área VIP do jogo da copa, mas na vida real, desde o dia em que houve o anúncio de que a copa seria no Brasil (2010, né?) eu já sabia que não estaria entre os entusiasmados torcedores nas arquibancadas muito menos no camarote.
Percebo que entre os meus interesses e os interesses dos meus amigos mais abastados há um enorme abismo e, por tanto, não posso admitir ou se quer cogitar que os citados sejam portadores da minha voz.
É aí que entra o movimento "vem para a rua", elaborado e encabeçado pelos filhos e filhas da elite paulistana. Não me enganou sequer por um momento. O movimento em que eu acredito é o dos milhares de favelados, negros, mulheres, homossexuais, indígenas dentre outras 'minorias' que sempre estiveram nas ruas lutando e gritando contra o desrespeito diário aos seus direitos e cidadania, esses sim tem o meu total apoio, embora não o suficiente para me fazer levantar dessa minha zona de conforto e ir pra rua gritar também.
A elite branca brasileira tem suas próprias demandas e acho justo e legítimo que tenham, só não são as mesmas que as minhas, se é que você caro leitor imaginário me entende.
Essa incessante luta da camada hegemônica da sociedade brasileira hodierna contra o atual Governo Federal me lembra muito a aquela História sobre a Princesa Isabel gente boa e bacanosa abolindo a escravidão no Brasil, salvando todos os pobres negros injustiçados, que não tinham força e nem vontade de se erguer e lutar pela própria liberdade.
Sob essa perspectiva os desassistidos precisam do redentor que lhes salve, visto que jamais poderiam perceber o enorme mal que os cerca sozinhos. Me desculpem os amigos, se não for possível perceber que meu discurso está para muito além de partidarismo político, me chamem de Petralha, esquerdopata, esquerda caviar, eu não ligo. 
O meu voto quem vai saber é a urna, mas a minha posição política não é a que vai com a maré e para me representar a pessoa tem que ter muito mais do que uma frase de efeito para gritar em estádio, por tanto, o grito dos reis do camarote NÃO ME REPRESENTA.
Pronto, escrevi.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Evitando a fadiga.

Há algum tempo venho me propondo a mudar coisas que me incomodavam muito.
Outro dia me peguei pensando em como eu tenho causado polêmica em certos grupos dos quais já participei mais pacificamente.
Me perguntei o porquê de certas situações estarem se repetindo com tanta frequência ultimamente e me respondi: talvez eu tenha me tornado uma chata.
Refletindo por mais alguns instantes, questionei-me acerca do motivo de essa chatice não ter alcançado certas esferas da minha vida.
Percebi que meu riso é mais fácil com uns e menos com outros, minha boa vontade também.
Entendi que o esforço empregado em prol da felicidade (ainda que efêmera) de alguém é inversamente proporcional ao carinho que esse alguém desperta em você.
Vou abandonar esses termos matemáticos para explicar melhor: quanto mais você percebe que a pessoa te tem apreço (e que o sentimento é recíproco), menos você precisa se esforçar para agradá-la, uma vez que fazer aquela pessoa feliz é se fazer feliz também.
Diante dessas constatações, acabei observando que continuo sendo muito agradável com quem é agradável comigo e finalmente entendi o que me tornou uma chata de galocha verde para uns: aprendi a dizer NÃO.
NÃO aceito mais ser apontada e criticada quando percebo que a finalidade única e exclusiva da crítica é me ver menos feliz;
NÃO aceito mais ser inferiorizada apenas para garantir que a autoestima de outrem não seja maculada;
NÃO aceito mais que se lancem dúvidas mal fundamentadas sobre as minhas escolhas quando estas não influenciam nas vidas de outras pessoas;
NÃO aceito mais mendigar por saudade, afeição, carinho e companheirismo.
Em contrapartida resolvi dizer SIM!
Àqueles que se preocupam comigo, que demonstram carinho mesmo de longe, aos que nunca desistiram de mim por opção;
SIM, a quem lembra que eu tenho algumas (poucas) qualidades, antes de apontar meus (inúmeros) defeitos;
SIM a quem confiou em mim mesmo quando, do nada, resolvi recomeçar do zero;
SIM a quem acredita que vai dar tudo certo no final.
SIM, sim, sim esse amor é tão profundo, você é minha prometida eu vou cantar pra todo mundo!!!
Precisava desabafar para mim mesma.
UFA. Me entendi.

Ah, só para explicar o título: Cansei de ficar cansada. Dizendo NÃO eu evito a fadiga.

Escrito em 06 dezembro de 2013, uma sexta-feira

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Quem é, sabe.


Hoje me perguntei duas ou três vezes o que realmente merece ser levado a diante nessa minha vida e o que posso descartar com um clique, com um tchau, com aceno de cabeça.
Já vi um montão de receitas prontas sobre o que é ser amigo e me dei conta de que, apesar de não saber fazer uma descrição exata do que é ser amigo, sei quem são os meus e como reconhecê-los.
Alguns de meus amigos, conheci desde menina, lá na casa dos 9 anos de idade.
Tem outros que conheci dia desses, noutra cidade, por acaso do destino que nos uniu através de uma prova que serve para juntar pessoas em salas de aula específicas. 
Entre estes e aqueles existem inúmeros que chegaram e ficaram no meu caminho.
Pra mim, tempo nunca foi lá algo muito importante (será por isso que me desgostei da História?), tempo de namoro ou de amizade, tem importância menor ainda. Isso porque o tempo é traiçoeiro, às vezes nos faz acostumar, acomoda incômodos em cantinhos imperceptíveis à nossa (já relaxada) visão.
Eu mesma já tive amizade com gente tão amada, tão querida, conhecida desde que aprendi a falar e que por coisa pouca, me mostrou que de onde menos se espera vem soco, rasteira e porta na cara. 
Entendi que o tempo passa e não é o que conta.
As palavras também são umas tratantes...
Conheço uma 'pá' de gente que diz que isso, isso e aquilo, ama, adora e pode contar com ela, mas que se eu ousar precisar, sei que não poderei ocupar.
Tem aquela galera que diz que te deseja o melhor, mas que quando te vê bem fica alvoroçada, lançando palavras maldosas em sua direção, querendo te fazer pensar que por ter mudado a capa você mudou também a essência, o conteúdo do livro que te faz ser você.
Ahãm, meus amigos não são reconhecidos pelas palavras.
Meus amigos mesmo, não acham meus sonhos maluquice.
Entenderam que todas as renúncias que fiz significaram muito para mim e que me orgulho delas.
O que é um título ou um concurso público se ele não faz parte do que sonhei para mim? Nada. Um cursinho pré-vestibular e o desemprego valeram mais, me fizeram mais feliz e meus amigos sabiam disso.
Meus amigos de verdade acreditaram que era amor quando falei que queria namorar um garoto que mora longe, lá em Porto Velho, não acharam insensatez (aliás, devo a uma amiga muito amada o empurrão necessário para ter a ousadia e alegria de ter aceitado sair para o jantar que nos uniria).
Os verdadeiros sabiam que eu voltaria para Feira e lutaram para isso junto comigo, mesmo os que me queriam por lá, em Jacobina pertinho deles. Sabiam, acreditavam, torciam,
Meus amigos de verdade me acham linda de jeans desbotado e chinelo de couro ou de roupa social de aprendiz de advogada.
Me admiram estudando História ou Direito.
Ingressando na Universidade aos 17 ou aos 25 anos, ou os dois.
Sei onde moram, o que fazem, do que gostam e onde eu gostaria que estivessem.
Tê-los é tão bom que eu me pergunto o que fiz para merecê-los, mas acredito que Deus tenha uma boa resposta para esse questionamento.
Dos descartáveis, não que sejam desimportantes, longe disso, mas hoje em dia, é de bom tom evitá-los. Fazem mal à minha natureza.
Beijos, podem me julgar (Vietnãfeeligns)

domingo, 28 de julho de 2013

Roda viva


"A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..."

Fui querendo voltar.
Saí de casa, naquele 5 de setembro com uma vontade enorme de ficar. 
De cara já encontro Luíde com aquela boa vontade, o ar de paciência e tranquilidade. Deixou tudo pronto para mim, era só chegar e viver. Até amigos, acreditem, até amigos ela tinha prontinhos para compartilhar. Romério, Cirlânio e Vitória, gente da melhor espécie, para mim.
A caloura já chegou enturmada e já tinha até uma amiga na sala: Geyse, a polícia do face.
Mas não queria ficar, insistia em ver dar certo a tal da transferência.
Deu errado uma vez.
Saudade de casa apertando a cada dia mais, cheguei a chorar até.
Tentei outra vez. Parecia que ia dar certo, mas o tempo foi passando e fez cara de que ia dar errado de novo.
Acabou o primeiro semestre.
Logo no primeiro dia de aula a novidade maravilhosa: Lá vem Arthur, gente! Nanda vai ser mamãe!
Não sei se foi Arthur, mas esse semestre a turminha chata de calouros se transformou. O coleguismo virou parceria, percebi a sorte que foi passar nesse vestibular.
Não há ninguém naquela sala 11 do Campus IV de Jacobina que não seja de bem.
Gente alegre, interessada, gente que vive e quer crescer e isso contagia.
Descobri o ouro de Jacobina. Não, a Yamana não consegue alcançar.
O ouro daquele lugar é a gente que chega por lá.
Quis ficar.
Fizemos planos, quando ele se formasse era lá que iríamos morar.
Aí, num dia de tarde: DEFERIDA!
Vamos voltar para casa, garotinha.
E os planos, aqueles recém-feitos são desfeitos e refeitos.
É claro que voltar para os braços dos que me viram crescer me faz feliz demais.
Mas Jacobina já era tão minha. Eu já era tão dela.
E sou.
Vou, mas os levo todos comigo.
Foi muito amor o que eu vi e vivi por aí.
Que sorte eu tenho nessa vida.

Escrito em 28 de Julho de 2013, um domingo
(desarquivei hoje, 04/02/2019)